“O problema todo é deixar de fazer aquilo que tem que ser feito, João”. O chefe estava nervoso com seu João. João, era o mais novo funcionário da companhia Cleaning Co. Apesar da idade avançada e de dificuldades físicas, João tinha consigo que ele era capaz de trabalhar na empresa. João tinha uma dívida muito alta a ser paga, e por isso não poderia abrir mão de tal trabalho.
Cleaning Co. era uma companhia de limpeza bastante requisitada na região de Boston. Ela era de propriedade de Machado, que havia chegado aos EUA a mais de 23 anos. Machado havia começado sua aventura americana aos 25 anos de idade, trabalhando em uma outra companhia de limpeza, propriedade de outro brasileiro, o Dutra – este por sua vez, chegou juntamente com os primeiros valadarenses há mais 35 anos.
Machado contratou João mediante a indicação do seu grande amigo, Roberto. Roberto era um rapaz novo, por volta dos seus 30 anos, que havia trabalhado para Machado, mas que tinha acabado de montar a sua própria companhia. João conhecia Roberto através de seu filho Sebastião, grande amigo de infância de Roberto. Sebastião continuava no Brasil, apesar de ter tido várias oportunidades de ir para os EUA. Ele amava a vida no campo e não abria mão de sair do lado de sua esposa e de seus filhos.
João, diferentemente de seu filho, quis enfrentar a batalha de entrar nos EUA, pelo México, e trabalhar uma jornada de 60 horas semanais, para conquistar o seu grande sonho. Ter uma casa própria sempre foi uma meta para João, porém nunca foi possível atingi-la enquanto trabalhava na roça, nas terras de José Pedro, o Gordo.
Gordo emprestou-lhe uma quantia razoável de dinheiro para o pagamento de coiotes que o atravessaria para os EUA através da fronteira do México. Era arriscado, além de ser uma viagem perigosa, era arriscado para um homem daquela idade tentar algo novo em um país diferente. João não tinha conhecimento algum de inglês, e ainda por cima, mal escrevia seu próprio nome. Ele demorou 35 dias para chegar em Boston, e em menos de um mês já estava empregado na Cleaning Co.
Vivendo de favor na casa de Roberto, seu João começou o trabalho novo. Vários dias foram se passando e o dinheiro proveniente do trabalho começou a aparecer. “A vida na América é boa demais”, pensava seu João. “Trabalho muito, porém ganho o suficiente”. Entretanto, a vida na América tem um custo, é caro viver. Depois que deixou de viver de favor, ele teve que começar a pagar aluguel. Depois vieram as cobranças do Gordo – que de tão correto não deixava de cobrar dívidas. E ainda restava o sonho, que foi ficando cada vez mais difícil de ser alcançado.
Embora insatisfeito com o trabalho, João continuava se dedicando. Seu chefe Machado, no entanto, ficava cada vez mais irritado com ele. No dia que Machado chamou sua atenção, ele pensou durante dias o que ele quis dizer com aquela frase. Nunca soube se Machado havia lhe cobrado algo que devia ser feito no trabalho, ou algo diferente. Ele pensava que nunca havia deixado nada que tinha que ser feito por fazer. E aquilo intrigou seu João. Mas, ele continuou fazendo o seu trabalho normalmente e se esqueceu daquilo.
Machado estava irritado com Seu João, pois este sonhava demais. Sonhava o sonho que Machado um dia sonhou – que também foi para a América atrás de um sonho. Sonho que nunca deixou de ser sonho. Sonhar em um dia ter algo ou ser alguma coisa importante. Machado não mais sonhava, vivia a realidade de sua vida, e se irritava com os sonhos alheios. Diferentemente dele, seu João não se dava conta da realidade, e mesmo num estágio avançado da vida, mesmo insatisfeito e infeliz, vivia de sonhos.

Bom conto. E acho que o seu João, vivendo de sonhos, de algum modo estava feliz. Muito mais do que o Machado, que se irritava com os sonhos dos outros.
Agora, o que é se dar conta da realidade, se o seu João vive a realidade do seu sonho?
Eu deixo para você esta pergunta.
Outra coisa: o conto tá bem escrito, mas o desenvolvimento da psiquê dos personagens é fraco.
Obrigado por elogiar a minha escrita. Mas este conto realmente não teve o intuito de desenvolver psiquê nenhuma de ninguém.
é “técnica” pra dar “verossimilhança”.
sacou a provocação?
adorei o conto, Danilo.:) E ri muito da conversa entre vcs dois:P
Também quero a assessiria do Jasão para meus escritos.
Quero escrever como Machado.
vc me ajuda?